Loucas do Riacho volta a cartaz dias 24 e 25 de março no Espaço Cronópios

por Juci Ribeiro

Performance investiga relações entre corpo e tempo, a partir do mito Ofélia



O espetáculo Loucas do Riacho volta a cartaz para curta temporada nos dias 24 e 25 de março, no Espaço Cronópios, 

localizado na Rua Direita do Santo Antônio Além do Carmo. A performance faz parte do Projeto Ofélia, inspirado na personagem mítica de William Shakespeare.
Neste ritual, Ofélia paira sem nome e mergulha nos corpos de sete performers para flexionar os sentidos de loucura, morte, corpo feminino e simbologia da água, e para reelaborar modos de relacionar-se com o tempo. Integram o espetáculo as atrizes/performers Camilla Sarno, Felipe Benevides, Liz Novais, Mônica Santana, Olga Lamas, Uerla Cardoso e Raiça Bomfim, que também assina a direção do trabalho.
Dentre as escolhas estéticas de Loucas do Riacho, há uma diretriz política que diz respeito às normatizações sobre o corpo feminino e sobre o ser mulher no mundo. Em Loucas, há um movimento sutil, em que cada corpo em cena e o corpus coletivo que se produz se desgarra das fronteiras dessas normatizações e, deste modo, as refuta. 
“Não é possível estar com/em Ofélia sem perpassar sua condição de mulher e as forças históricas que aí interagem, cotejando-as com minha própria condição feminina em confluência com a de outras mulheres com quem estabelecemos relações de contraste e/ou cumplicidade”, realça a diretora.

Dramaturgia

O espetáculo transcorre numa dramaturgia do encontro, por meio de acordo de disposição que se constitui na abertura para a relação com o outro. As influências para essa construção dramatúrgica partem principalmente do campo da performance, em referências como o conceito de “programa performativo”, de Eleonora Fabião (2013).
“Não há um material preparado de modo fechado que o público assiste e, a partir daí, pode ou não fruir a depender de sua afinidade e repertório. O que há é um arranjo de chaves através das quais artistas e público podem ir – ou não - se engajando, numa performance de aproximação e numa reformulação do tempo”, explica Raiça Bomfim.
Deste modo, em Loucas, o que presenciamos não é um encadeamento de ações que preenchem toda a duração da cena, mas uma cena-acontecimento que interage com as ideias de silêncio e vazio, e que começa ao entardecer, tendo uma duração variável, em torno de uma hora e meia a três horas. Bomfim utiliza de alguns elementos objetivos que servem como disparadoras de situações, a partir dos quais a cena se desenrola de modo randômico, junto aos elementos não antecipáveis que rebentam em cada momento.
“O que fazemos é animar as possibilidades de escuta e a experimentação de uma nova relação com o tempo. Em Loucas do Riacho, a cena foge ao longo da imprecisão de suas marcas, da incerteza sobre seu início e fim. Mesmo acontecendo num endereço definido, ela transcorre num espaço intersubjetivo, num fluxo que se compõe pelas trocas sutis entre os agentes envolvidos, que são tanto os artistas que desenvolvem a obra quanto o público que a compõe a cada dia”, descreve Bomfim.

Convite
Na espera por esse outro desconhecido, que é o público, as sete performers se articulam numa série de autorizações e se dispõem a sucessivas aberturas: “permitimo-nos silenciar, escutar, esvaziar, mover, olhar, descansar, estar, escapar, retornar. Arrumamos o espaço buscando as linhas de fuga que se tecem como um convite a despir-se dos temperamentos cotidianos e a mergulhar conosco no riacho das loucas”.
Neste fluxo diário, a água pulsa numa poética da transitoriedade, da vertigem e do desmoronamento. “Em Loucas, estamos também cartografando um rio, percorrendo um território inconstante, encarando o pavor, a vertigem e a agonia. Saltamos no rio-Ofélia, percorrendo sua qualidade imanente de permanecer em estado de passagem e fluxo. Fluir e não recusar nada das paisagens que este rio toca e corta é a missão que assumimos”, expõe Raiça Bomfim.
“Optamos por aceitar o não-controle sobre os enredos que vão se tramando, alargando ao máximo o campo de explosão das vicissitudes de cada matéria", acrescenta.

Fluxo
Desta forma, em Loucas do RiachoOfélia se torna o fluxo de uma voz que se expande. Uma voz em insurreição, alucinada, que desmarcara a fragilidade do hábito e atiça a crise e a derrocada dos poderes que mantém a dinâmica que oprime o feminino e que atualiza operações de submissão.
“O que resta dessa operação é inapreensível e misterioso, e pode ser encarado num aspecto libertário, anárquico, dando margem a novos processos de subjetivação. O que resta como procedimento central, arriscado e sincero é dissolver a rigidez dos modos, alinhavando cumplicidades através das quais um rio de sentidos insondáveis corra entre nós, entre os corpos que habitam a casa a cada dia”.
“Assim é o nosso chamado para estar no rio-Ofélia", convida Olga Lamas. O espetáculo-performance conta com figurino e conceito cenográfico criados por Fábio Pinheiro. A cenografia funciona como uma instalação, na qual o público pode mergulhar e sentir a ambiência desse riacho. Já a concepção de iluminação tem a assinatura de Márcio Nonato.
A direção musical é de André Oliveira e, para esta temporada, a adaptação da trilha sonora junto com a performance-sonoplástica fica a cargo de Neila Kadhí. A produção é da Gameleira Artes Integradas. Vale lembrar que o espetáculo tem início no horário do pôr do sol, às 17:30h, e não tem duração definida. É importante falar que o espetáculo contém nudes, por isso, a indicação etária de 18 anos. 




fotos: Mariana David 

Serviço
O quê: Loucas do Riacho – Projeto Ofélia
Onde: Espaço Cronópios [R. Direita do Santo Antônio, 179 - Santo Antônio]
Quando: 24 e 25 de março, às 17h30 
Indicação etária: 18 anos
Ingresso: R$30 e R$15
**Leve uma planta e pague meia**





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